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A crescente demanda por minerais críticos e terras raras para aplicações ligadas à transição energética, indústria tecnológica e digitalização da economia colocou o tema no centro das discussões da 11ª Conferência Brasil-Alemanha de Mineração e Recursos Minerais, realizada pela Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo (AHK São Paulo) em Belo Horizonte, nesta quinta-feira, 27. Ao reunir representantes da indústria, instituições financeiras, centros de pesquisa e especialistas dos dois países, o encontro reforçou a importância de construir cadeias de suprimento mais resilientes, sustentáveis e capazes de responder aos desafios da segurança de abastecimento global.
Os debates destacaram a complementaridade entre Brasil e Alemanha nesse cenário. Enquanto o Brasil reúne algumas das maiores reservas minerais do mundo e potencial para ampliar etapas de processamento e agregação de valor, a Alemanha contribui com expertise em engenharia, automação, eficiência operacional e desenvolvimento tecnológico. A convergência dessas competências foi apontada como um dos elementos centrais para fortalecer a cooperação bilateral em áreas estratégicas como minerais críticos, terras raras, industrialização e inovação aplicada à mineração.
Durante a abertura da Conferência, Bruno Vath Zarpellon, Diretor Executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios da AHK São Paulo, destacou o papel da AHK São Paulo na articulação do diálogo entre os diferentes atores do segmento. “A missão da Câmara Brasil-Alemanha dentro do setor de mineração é transformar a cooperação entre os dois países em oportunidades concretas de negócios, inovação e desenvolvimento para empresas e instituições dos dois lados”, afirmou. “Ao longo da última década, a Câmara consolidou sua atuação no setor por meio do Centro de Competência de Mineração e Recursos Minerais, conectando especialistas brasileiros e alemães e fomentando discussões sobre sustentabilidade, pesquisa e desenvolvimento, processamento mineral e novas oportunidades de negócios para a cadeia mineral dos dois países”, completou.
Segundo Zarpellon, a possível retomada das discussões sobre o Acordo para Evitar a Bitributação (ADT) entre os dois países, a implementação do Acordo União Europeia-Mercosul, somados ao fato de que o Brasil é o único parceiro estratégico da Alemanha na região, reforçam as oportunidades de cooperação bilateral e o papel da AHK São Paulo.
Franz Hinze, do Departamento de Internacionalização de Empresas e Desenvolvimento de Negócios, aproveitou a ocasião para resgatar a importância da atuação da instituição junto ao setor mineral. “Ao longo de onze edições, a Conferência Brasil-Alemanha de Mineração e Recursos Minerais se consolidou como um espaço de diálogo entre especialistas, empresas e instituições dos dois países. A cooperação entre Brasil e Alemanha é fundamental para avançarmos em temas estratégicos como minerais críticos, inovação e transição energética”, afirmou.
A cooperação também foi tema da fala de Benjamin George, Conselheiro de Assuntos Econômicos da Embaixada da República Federal da Alemanha. “O Brasil deixou de ser visto apenas como fornecedor de matérias-primas e passou a ocupar uma posição estratégica para o futuro tecnológico e sustentável da Alemanha e da Europa. A combinação entre a capacidade produtiva brasileira e a excelência tecnológica alemã cria condições únicas para o desenvolvimento de cadeias de valor mais resilientes, sustentáveis e competitivas”, afirmou. “Os minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão industrial e passaram a ocupar um papel central nas discussões sobre competitividade, segurança econômica e soberania nacional. Pensando nisso, fortalecer a cooperação entre Brasil e Alemanha é fundamental para o desenvolvimento de cadeias produtivas estratégicas para os dois países”, complementou.
Dr. Herwig Marbler, da Agência Alemã de Recursos Minerais (DERA na sigla em alemão), foi pelo mesmo caminho durante sua fala: “O Brasil possui um enorme potencial em minerais estratégicos, mas muitos desses recursos ainda dependem do desenvolvimento de processos técnica e economicamente viáveis para serem aproveitados em escala industrial. A cooperação entre pesquisa, tecnologia e setor produtivo é fundamental para fortalecer essas cadeias de valor”.
A abertura contou ainda com a participação, de forma remota, do Secretário Parlamentar de Estado do Ministério Federal de Economia e Energia da Alemanha, Stefan Rouenhoff, que destacou a parceria de longo prazo com o Brasil em sua fala. “O Brasil é um parceiro de colaboração vital para a Alemanha. Nossa parceria se baseia em valores compartilhados, confiança construída ao longo de muitos anos e no compromisso comum de fortalecer cadeias de valor mais resilientes. Estou convencido de que uma cooperação mais estreita entre Alemanha e Brasil no setor de matérias-primas gera benefícios econômicos para ambos os países e contribui para reduzir dependências estratégicas”, afirmou.
Brasil e Alemanha: caminhos na mineração
As oportunidades de cooperação bilateral foram o tema do primeiro painel da Conferência, “Cadeias de valor e modelos de negócio focados em resiliência e colaboração Brasil-Alemanha”, com a presença de Dr. Reik Degler, do Instituto Federal de Geociências e Recursos Naturais da Alemanha (BGR, na sigla em alemão); André Francisco Wolf, do KfW IPEX-Bank; David Moreira, do Instituto Nacional de Terras Raras (INTR); Mônica César, da Vale Base Metals; e moderação de Guarani de Morais, Diretor de Investimentos na Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Durante o debate, os participantes discutiram a importância de integração em torno dos interesses brasileiros e alemães no setor de mineração, sob a perspectiva da transição energética. “Precisamos formar uma unidade em torno dos lados político, financeiro e da indústria, e montar uma cadeira de suprimentos. Esse seria o primeiro passo”, afirmou Reik Degler, do BGR. Para os painelistas, é preciso avançar não apenas na exploração de minérios, mas também na criação de uma cadeia de maior valor agregado.
Setor mineral e inovação
No segundo painel, a pauta foi a “Inovação aplicada à mineração”, e contou com as contribuições de André Ferrarese, da Tupy Tech; Flavio Libardi, da Bosch; Svenja Ahlburg Soares, da Diretoria da AHK São Paulo e da Wilo Brasil; e moderação de Henrique Tavares, da Invest Minas.

Ao longo da discussão, os painelistas tiveram a oportunidade de apresentar o que já está sendo feito em termos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias dentro do setor mineral – não apenas em relação a extração e beneficiamento, mas inclusive na outra ponta desta cadeia. Trata-se do reaproveitamento e a reciclagem de produtos finais fabricados a partir desses minérios, como no caso de baterias para veículos elétricos, por exemplo.
Sustentabilidade e segurança na mineração
O terceiro e último painel do dia teve como tema “Operações mais eficientes, sustentáveis e seguras”, com participação de Bruno Silveira, da Haver & Boecker Niagara; Paulo Fernandes, da Pilz do Brasil; Renato Biondo, da Festo; Rodolfo Walder Viana, da BASF; e moderação de Carmen Castro, da FIEMG Lab.

Os participantes ressaltaram as vantagens competitivas do Brasil, como uma matriz energética mais limpa, riqueza mineral e potencial para atender às demandas da transição energética, e discutiram os desafios para transformar esse potencial em ação com maior rapidez, previsibilidade regulatória e investimentos, sem esquecer a questão da segurança.
“Eu queria deixar aqui um apelo aos pesquisadores e aos desenvolvedores de tecnologia: desenvolvam tecnologia, isso é importantíssimo para o Brasil. Mas não deixem de olhar para o tema de segurança”, afirmou Paulo Fernandes, da Pilz do Brasil. “A segurança traz, inclusive, eficiência operacional. E como é que a gente pode falar de sustentabilidade se a gente não cuidar das pessoas?”, questionou.
Para finalizar, os participantes destacaram que o futuro da mineração passará por operações cada vez mais automatizadas e conectadas, exigindo atenção simultânea à cibersegurança, à segurança operacional e à adoção de novas tecnologias desde a concepção dos projetos.
