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Em uma manhã voltada à discussão sobre os rumos da Inteligência Artificial nas empresas, a Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo (AHK São Paulo) reuniu mais de 70 participantes de seus 13 Grupos de Trabalho no encontro “Inteligência Artificial na prática: como gerar valor com responsabilidade nos diferentes setores da empresa”. Realizado nesta terça-feira (23), o evento propôs uma reflexão sobre como a IA pode deixar de ser apenas uma promessa tecnológica e se tornar uma ferramenta efetiva de produtividade, apoio à tomada de decisão e geração de valor nas organizações.
Lucila Machado, Diretora de Assuntos Associativos da AHK São Paulo, realizou a abertura do encontro e apresentou o tema como um eixo transversal às atividades da Câmara. Em sua fala, ela destacou o papel da instituição como uma plataforma de conexão entre conhecimento e networking, por meio de grupos de trabalho voltados a áreas como associativismo, inovação, comunicação e comércio exterior. “O objetivo dos grupos de trabalho é que eles sejam uma plataforma para trazer conhecimento e promover networking para os integrantes, além de apresentar soluções para as nossas empresas associadas”, afirmou.
Machado também reforçou a importância do engajamento das empresas participantes e reconheceu a trajetória de associadas presentes no evento. Entre elas, citou a KPMG, que mantém mais de duas décadas de vínculo com a Câmara, e a Bayer, uma das associadas mais antigas, com atuação no Brasil desde 1952 e quase 80 anos de parceria com a instituição. Ao lado da Ânima Educação, essas empresas representam o compromisso de longo prazo com a rede da Câmara e com o avanço de iniciativas estratégicas, como os debates sobre inteligência artificial e inovação responsável.
Para falar sobre o uso prático da IA, Ricardo Santana, Líder do KPMG Lighthouse para Dados e Análise, Automação e Inteligência Artificial, trouxe dados e exemplos de como as empresas podem aumentar a produtividade com o uso estratégico da inteligência artificial. Santana destacou a evolução da tecnologia — da análise de dados e automação por RPA à IA generativa e aos agentes inteligentes — e afirmou que o principal desafio está em identificar, nas rotinas das equipes, tarefas que possam ser automatizadas total ou parcialmente.
O palestrante também apresentou dados de uma pesquisa global realizada pela KPMG em parceria com a Universidade de Melbourne. O estudo ouviu mais de 48 mil pessoas em 47 países e apontou alta receptividade dos brasileiros ao uso da IA. “O brasileiro vê na IA uma oportunidade de se diferenciar. Há uma alta receptividade à tecnologia — 86% aceitam seu uso e 80% dizem saber utilizá-la —, mas é preciso transformar esse potencial em produtividade, com segurança e responsabilidade”, enfatizou.
“Adesão à tecnologia deve caminhar ao lado da qualificação profissional”
Embora haja receptividade por parte dos brasileiros, o desempenho dos profissionais não é necessariamente potencializado com a IA. Segundo Matheus Gravito, Gestor Acadêmico Nacional na Ânima Educação, o avanço da tecnologia evidencia um paradoxo no mercado: enquanto empresas relatam dificuldade para encontrar profissionais qualificados, talentos afirmam não ter oportunidades. Na visão do executivo, o problema não está na falta de pessoas, mas em uma desconexão entre formação, competências e necessidades reais das organizações. Ao destacar que 39% das competências devem ser transformadas até 2030 e que 59% da força de trabalho precisará de requalificação, Gravito defendeu que a principal habilidade do profissional contemporâneo passa a ser “aprender a aprender”.
Nesse sentido, Gravito argumentou que a produtividade com IA não depende apenas da aquisição de ferramentas, mas da capacidade das pessoas de transformarem tecnologia em valor. “Costumo dizer que o ROI com ‘I’ (Retorno Sobre Investimento, na sigla em inglês) em IA só será alcançado se vier acompanhado de um ROE, com “E” – o “Retorno Sobre Educação” – com profissionais capacitados para tomar decisões inteligentes, desenvolver cultura de aprendizado e gerar resultados sustentáveis. Novas tecnologias devem ser incorporadas como uma ferramenta de trabalho, sem substituir as competências humanas”, declarou.
A partir do case da Ânima Educação, ele defendeu ainda a integração entre universidades e empresas como caminho para formar profissionais mais preparados, aproximando estudantes de desafios reais do mercado e permitindo que a IA seja usada não apenas para automatizar tarefas, mas para desenvolver protagonismo, acelerar carreiras e ampliar a competitividade das organizações.
“Aplicação correta da IA revela caminhos desconhecidos na produtividade”
Felipe Miziara, Diretor de Engenharia de Dados e IA LATAM, da Bayer, apresentou o case do E.L.Y., solução de inteligência artificial desenvolvida para apoiar vendedores técnicos da divisão agrícola da companhia. Antes de detalhar a ferramenta, contextualizou a relevância da área de Crop Science para a Bayer no Brasil, onde a divisão agrícola representa 91% dos negócios da empresa, e para a América Latina, responsável por 31% das vendas agro da Bayer globalmente. Nesse cenário, o E.L.Y surgiu para facilitar o acesso dos vendedores a informações estratégicas, reunindo dados sobre produtos Bayer, conhecimento agronômico, artigos científicos e informações regionais em uma solução capaz de apoiar recomendações, preparação de visitas e atendimento ao cliente.
A adoção da ferramenta, segundo ele, surpreendeu a própria Bayer: em três meses, o E.L.Y já contava com mil usuários ativos diariamente no Brasil. A solução passou a gerar ganhos estimados de duas a cinco horas por vendedor a cada semana, além de contribuir para acelerar o onboarding de novos profissionais, com casos de vendedores realizando a primeira venda ainda no primeiro trimestre. Miziara destacou que o uso da IA também abriu caminho para novas funcionalidades, como resumo de visitas, comparação de dados de mercado, geração de conteúdo para WhatsApp e integração de informações em um ecossistema.
O painel de perguntas e respostas reforçou uma das principais mensagens do encontro: a inteligência artificial só gera valor quando é acompanhada por estratégia, governança e desenvolvimento humano. Ao longo da sessão, mediada por Fernando Prado Paraíso, Diretor de Inovação e Sustentabilidade da AHK São Paulo, os palestrantes discutiram desde a segurança de dados em aplicações corporativas até a formação de profissionais capazes de transformar tecnologia em produtividade.
Por fim, alguns participantes comentaram a relevância dos Grupos de Trabalho da AHK São Paulo, em especial do Super GT, como fóruns de debate cruciais para a atualização das empresas associadas. Mauritius Reisky von Dubnitz, Coordenador do GT de Educação da AHK São Paulo e Diretor de Relações Institucionais do Colégio Visconde de Porto Seguro, destacou como a velocidade na mudança de formação de novos profissionais obriga as empresas a se envolverem na formação do profissional. “O objetivo desse grupo de trabalho é trazer as empresas associadas da Câmara para perto, a fim de conscientizá-las sobre a importância da criação de modelos para formação do seu próprio profissional. O GT é o elo de ligação entre realidade econômica e a academia”, afirmou.
Integrante do GT de Logística da Câmara, Marcelo Belotti, Head Global de Gestão de Mudanças em Compras na Enercon, reforçou a ideia do uso estratégico das ferramentas de IA. “Se você tem uma estrutura de processos fragmentada, ao colocar um agente de IA, em vez de melhorar a performance do seu negócio, você vai acelerar o caos”, afirmou. Para ele, os grupos de trabalho promovem uma base de informação e conhecimento para que as empresas do ecossistema alemão possam modelar o futuro.
Cintia Baldini, Coordenadora do GT de Recursos Humanos da Câmara e Gerente de Pessoas, Cultura & Manutenção da Schmersal, destacou como as pessoas estiveram no centro do debate, mesmo que o fio condutor do encontro fosse a IA. “Abordamos IA durante essa manhã, mas em momento algum as pessoas ficaram de fora do processo. Falamos sobre como recrutar, contratar e qualificar melhor, e, no fim das contas, seguimos falando delas: das pessoas. Para mim, a importância está nessa valorização de quem está no dia a dia, trabalhando, aprendendo e compartilhando”, finalizou.
